quarta-feira, 12 de agosto de 2026

 Demasiadamente humana, deteve-se diante da desproporção dos corpos. O corpo, essa prisão da alma, que a trai através dos olhos, quando este não atrai.


Ainda que ciente de suas próprias imperfeições, sentia aversão às que não lhe correspondiam em similaridade.


Pode parecer crueldade, mas é limitação. Pode parecer repulsa, e é, mas sem a intenção de ferir. Pelo contrário, brotaram sentimentos misericordiosos e constrangedores, que se disfarçaram sob palavras agradáveis e interessantes.


Poderia ter aceitado as bonitas feições, a música, os nobres ideais, o desejo declarado em exagerados elogios não merecidos. Mas, lamentavelmente, buscou um porte mais esguio, grandes mãos, uma voz grave de fala firme e, então, acabou escolhendo a solidão.


Não fossem os quilômetros de distância impostos a seguir se dedicaria a uma tentativa? Ou isto causaria uma dor, ainda maior, arrastada para o depois?


Então, demasiadamente humana e só.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Tardia essa consciência de que a posse é uma quimera.

Quando sentisse que já lhe escapava, houvesse lhe franqueado a liberdade ,esta também lhe serviria.

Ao se dar conta, apenas bem adiante de a vida ter estado por um fio, colocou-se em um cenário restrito, no qual a lealdade (provavelmente elogiada) continua sendo a de um amor fraterno e só, como antes e há muito, sem a aventura do desejo renovável que, sim, é passível de acontecer para algumas poucas almas afins. Não era o caso.

Tristemente empurram-se anos, décadas, cadeiras de rodas.

Isto, agora? Trégua, se já não há guerra? Pretensa altivez, a revelar desdém? A ver. Mas fica a lição: ninguém é de ninguém!



 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

Poetas,

tu e eu!

Olhares- setas


e, sem alarde,


um encontro nasceu…


Tão improvável 


quanto esta tarde,


sol que arde,


tempo instável…


Depois? Choveu.




terça-feira, 10 de março de 2026

O quanto 

uma utopia

sustenta  

um homem

para que carregue

o peso de uma realidade

tão desafiadora?

Eu digo, atenta,

que mais que sustentar

ilumina,

luz que irradia.

Feliz de quem

pôde estar perto

e apenas receber

alguns raios dessa luz!

Nem todos.

Nem todos apreenderam

o homem

por detrás

da utopia

que, então, encantado,

enraizou-se

tal qual árvore frondosa

que simplesmente permanece,

viva.





sábado, 27 de dezembro de 2025

Na praia, a placa

fincada na areia,

molhada:

"cuidado, perigo"!

Nela, o desenho

de uma caveira: morte!

Não desdenho,

nem nada,

que quer alertar

sobre os perigos do mar.

Mas não aplaca

o prazer de dele desfrutar

pois que, com ele, o mar,

já tenho intimidade.

Conheço os limites

que me impõe,

a localização

das correntes de retorno.

E, como não tendo a retornar,

apenas me entrego

às ondas que levam adiante.

Assim, a placa, a caveira,

só me lembram que ela existe.

Ela, a morte.

E só me faz pensar

(que sorte!)

em como é bom

estar viva!





 

domingo, 27 de julho de 2025

 É lindo ,sim,

de se ver

o céu todo azulzinho,

dizem, de brigadeiro.

Mas, para mim,

vou te dizer..

...eu, que prefiro 

o doce à patente,

gosto mais é dele, assim,

enfeitado, faceiro,

todo de nuvens desenhado,

chupando muitas cores

misturadas do sol se pondo.

Contemplo, miro contente,

esse mundo redondo,

com meu olhar diferente.






sábado, 19 de julho de 2025

Amores

 A tragédia se abateu

sobre o meu muso insuperável.

Ainda vive, mas abatido, limitado

e, por isso, forçosamente recluso.

Para mim, é com se não vivesse.

Ainda nos veremos

nesta existência?

Com a certeza

de que seu coração

me foi entregue,

o meu pensamento

diário e insistente, tristíssimo,

é imaginar

a dor de suas perdas,

no corpo e na mente.

A tragédia se abateu

sobre o meu muso insuperável.

E, por assim ser,

fecha-se o ciclo dos poemas

de amor- Eros.

Houve outros ,

hoje sei que menores.

Pois que este fez-se ápice,

sim, insuperável, derradeiro amor..

E, como nos encantávamos juntos,

com o mar, as pedras,

as montanhas, os pássaros,

sol e lua...

...e como nos desencantávamos juntos

com as injustiças deste mundo,

todos os versos a partir de então,

amor- Ágape & amor -Phílos,

sejam cânticos

a sublimar nosso amor- Eros,

embalando nossas almas

até nosso próximo reencontro,

por aqui (?) ou na eternidade...